sábado, 23 de agosto de 2008

Mímico

Tinha imaginado algo diferente quando saí de casa em busca de um trabalho que me desse de comer e noites bem dormidas. Noites bem dormidas porque com fome não se poderia mesmo dormir. A mala tão murcha naquele canto de quarto de pensão, e as poucas camisas penduradas no armário embutido. Caberia dentro dele, eu todinho e tudo que trazia comigo. Até mesmo meus acanhados sonhos que há muito deixei pra traz. Talvez em alguma das pensões não pagas e de todas expulso.
Mais barata, nessa dividia quarto com um mímico das ruas. Mímico. Recolhia em seus pequenos espetáculos ao ar livre apenas o suficiente para o pão e para a tinta do rosto. Bom que fosse mímico, assim guardava saliva pra me ajudar a engabelar a dona da pensão.
-Semana que vem. Nós pagaremos. Os dois. Conseguimos uma bela entrevista. Vou deixar as ruas e a tinta branca! E ele ...! A senhora vai ver só como vamos.
-Só o que quero ver é a cor do dinheiro que me devem meu rapaz.
-A cor será a mais bonita senhora! Garanto! Cores que lhe trarei com a maior satisfação. Ou a senhora acha que a deixaria na mão?
-Não....é apenas que....
-Ora deixe disso... sabe o quanto damos duro e o quanto a estimamos...
-Sim, sei....e também os estimo...
-Pois bem! Sossegue... logo terá o retorno que merece por sua infinita bondade e compreensão.
E assim levava a vida. Era esperto. Altivo. Tinha ares de príncipe. Sabia como convencer alguém do que quer que fosse. E o fazia sem o menor dos esforços, como se ao jogar a moeda ao ar soubesse sempre qual face lhe dariam. Mas a entrevista nunca chegava. A tinta parecia grudar em seu rosto. Acho que no fundo era o que gostava de fazer. Sentia-se grande. Mais do que quando falava. E olha que ficava bem alto quando falava. Sua postura ereta de pescoço comprido, os olhos pareciam olhar por cima. Impunha. Sem que percebesse, ele se impunha. Como se impõe o cisne aos patos. Comia em sua cama paralela a minha o arroz com sardinha mais fino de todas as refeições. Como se comesse lagosta, ou qualquer coisa que nossos bolsos não pudessem comprar.
Sabia de tudo um pouco, e do nada sabia “um tudo” surpreendente. Até quando não sabia parecia ter conhecimento profundo. Eu, como bom mineiro que sou, aprendi muito apenas escutando e observando aquele perspicaz mímico das ruas. Mas ele aprendeu comigo também, tenho certeza de que ele nunca se esqueceu, enquanto vivo, do que aprendera em matéria de paladar musical com esse mineirinho aqui. Ah.....Não fora por meus velhos e bons discos não teria iniciado aquele romance com a francesinha do café da rua América.
A conhecera num fim de tarde, após seu trabalho. Mal pôs os olhos nela e já estava perdidamente apaixonado. Passou a freqüentar o café todos os dias assiduamente apenas para olhá-la servir as mesas e sorrir para as pessoas. Chegava à pensão perdido, atordoado, com ela perdia todo seu latim. Não havia prosa ou versos que soubesse de cor e salteado que pudesse escapar de sua boca nos momentos em que se encontrava frente à moça. Travava. Simplesmente travava. Suas palavras não passavam de “um suco de laranja, por favor.”.
Numa noite, enquanto me aprontava para dormir, esticando a coberta, aflito se abriu comigo. Surpreendeu-me. E muito. Pois se até eu, calado, sabia como conversar com uma moça que fosse de meu interesse... Justo ele? Não sabia o que dizer. Respondi apenas:
-Seja sincero, ora. Diga o que sente.
-Mas é esse meu problema. Sou ótimo em interpretar, em enrolar as pessoas. Mas agora, quando o que preciso dizer é simplesmente: “Saia comigo. Goste de mim.” Não sei como faço.
-Comece do começo, ora.
E lá foi ele no dia seguinte. Trabalho seguido do suco de laranja no Café. Falou. Mas não foi muito longe com sua sinceridade, a moça não lhe deu muita confiança. Afinal, sinceridade exige certo treino. Enrolou-se todo nas palavras, não sabia levar um só diálogo até o final sem seus meandros.
Aconselhei que parasse para se olhar nu, bem fundo, até o dedão do pé da alma. Ele não sabia bem como. E foi aí que lhe emprestei meus bons discos para que ouvisse em silêncio. E em silêncio se ouvisse também.
Funcionou. Na semana seguinte já andava com a moça de braços dados. E com ela casou-se no ano seguinte. Não tiveram filhos. Ela ficou viúva antes disso. Meu amigo mímico perdera a vida ao tentar defender uma senhora de um ladrão que lhe puxava a bolsa de mão. Dele restou-me apenas a lembrança de um rapaz altivo, falante, que para conhecer a si mesmo precisou primeiro se perder nos olhos de uma moça.

Um comentário:

Gabriel Marchioli disse...

A bagagem é essa, a que temos para sonhar, somos parte daquilo que temos em mãos, outra parte, daquilo que ouvimos com o coração. Não há dores mais perdidas e debafafos mais que desalentos quando deixamos os sonhos para trás, enquanto uma ferida aberta, estática de si mesmo.
Se soubessemos que nos aconteceria a cada passo dado, que surpresa teriamos de viver, qual seria a graça latente se não houvesse desordem, nunca nos contentariamos com o objeto nunca encontrado, na verdade não haveria o que ser encontrado, entendido, deposto, se não houvessem perdas.
Só quando entendemos um pouco da gente, quando aprendemos a olhar no "espelho-alma", é que podemos compreender o outro - enquanto um acrescimo de si mesmo.