terça-feira, 7 de outubro de 2008

A Noite e o Vento.

A moça. Sentada junto ao parapeito da janela. Observa a noite. O asfalto escuro. As ruas. Largas ruas. Sombria e inexploradas. A visita recente da chuva deixou marcas no cenário. Pequenas marcas. O cheiro. As narinas apuradas reconhecem com prazer aquele odor. Fazem com que os olhos instintivamente se fechem. O prazer que aquilo tudo provoca nela. Instinto de caça. Mas não confunda aqui, caça com morte. O contrário disso. Vida. Tato, olfato e paladar. Vontade louca de sair pelas ruas em busca. Do quê? Não sabe. Só sente. É vontade. Liberdade. Correr. Voar. Queria os pés descalços. O vento a percorrer seu corpo. E aquele cheiro. O cheiro...
“Ah...” Suspira. Encosta levemente a cabeça na grade da janela. E sonha o futuro. Os rumos que sua vida tomará. Teve sempre nas mãos linhas profundas. Certas. Os olhos. Grandes. Agora, as pupilas dilatadas. Pudera mastigassem seu coração. Pudera encontrar aquele ser que lhe retivesse a alma.
O homem de “olhos de ressaca” Sim. Seu homem teria obrigatoriamente olhos “oblíquos e dissimulados” (perfeita descrição fez Machado de Assis do que ela precisa). Posto que para reter-lhe a alma são extremamente necessários olhos que aprisionem os seus. Ressaca. A puxar. A reter. A prender. A aprisionar.
Ele teria mãos maiores que as suas. O que não seria muito difícil, já que as suas eram tão pequenas. Mas seriam maiores. No encontro com as suas, transmitiriam ao mesmo tempo segurança e um convite a voar. Juntas. Atadas.
É certo, também, que seria inteligente. De sua boca nunca sairiam palavras que a desrespeitasse. As palavras não fariam dele um homem grosseiro. Vulgar.
Mas é certo que a boca seria bem mais que bonita. Só bonita não a enfeitiçaria. Seria obscena. Lábios, dentes e língua. Obscena seria a boca. Capaz de mastigar-lhe o coração. Triturar-lhe os sentidos. Confundi-los e atá-los um a um. Em um desvario mordaz. Mas não confunda, aqui, mastigar com dor, sofrimento. Mastigar porque sem aquela boca sentiria que não mais pudesse viver. Fonte inesgotável de vida. No desenho incomum e na corpulência a luxúria inegável. A mastigar. A devorar. A sua. E o seu coração.
E que o mais imprescindível não seja aqui esquecido. A alma do rapaz. Seria mais que um caminho a percorrer. Labirinto. Labirinto sim, já que era necessário que se preocupasse em desvendá-la. A alma. Indecifrável. Causaria nela a expectativa infindável de a cada busca. Um algo mais. Nunca previsível. Surpreendente. Sempre a delícia do mistério. Por mais claro que seja. A cortina do mistério era necessária para mantê-la ali. Presa a ele.
A essa altura a moça já se meche impaciente. Quer sair dali. Fechar a janela. Parar com pensamentos absurdos. Onde já se viu. Não se achava muito normal, mas daí a sentir esse absurdo desejo pelo novo. Era de aquário. Aquilo de explorar, do obscuro. Do cheiro. Sair em busca. O mistério. Tudo a inquietava. E de certa forma sente-se confusa no desejo. Posto que nada há nele de concreto.
Mas daí, apertando os olhos... Na rua. Na noite. Distante. Formou-se o perfil. Sim. É dele o perfil. Pode enxergar agora. Como uma lâmpada que se acende. A epifania. O perfil. Ele. Nele. Tudo o que de impalpável e abstrato procura na noite. Nele. Agora ela entende. Ela o vê. Como a noite. E tudo o que ela representa. Seu perfil delineia os mesmos traços. As mesmas características. Obscuras. O mistério. A liberdade. Tudo.
Todavia, ela, incomum também. Ela é como o vento. E ele seria um tolo se acreditasse que é tudo o que ela precisa. Há na canção antiga a certeza disso. “She is like the Wind”. Ele a noite. Ela o vento. Ela é parte dele. E ele parte dela. Na união perfeita. Uma coisa só. Mas que ele cuide. Cuide bem dela. O vento...

Um comentário:

Gabriel Marchioli disse...

"Mas é certo que a boca seria bem mais que bonita. Só bonita não a enfeitiçaria. Seria obscena. Lábios, dentes e língua. Obscena seria a boca. Capaz de mastigar-lhe o coração. Triturar-lhe os sentidos. Confundi-los e atá-los um a um".

Enfeitiçada pelo vento e o aroma da terra molhada da chuva. Tempo firme lá fora. O vento. Trazendo. Levando embora. fazer o que com o vazio que cada pessoa que passa. Deixa. E a alma tenta fazer a sintonia. Ser perfeita. Seria. Se além das mãos trêmulas desse encontro. Voasse. Melhor parar por aqui...