segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Medo de Amar

“No centro de um planalto vazio
Como se fosse em qualquer lugar
Como se a vida fosse um perigo
Como se houvesse faca no ar
Como se fosse urgente e preciso
Como é preciso desabafar
Qualquer maneira de amar varia
E Léo e Bia souberam amar
Como se não fosse tão longe Brasília de Belém do Pará
Como castelos nascem dos sonhos Prá no real achar seu lugar
Como se faz com todo cuidado
A pipa que precisa voar
Cuidar de amor exige mestria...”

(Oswaldo Montenegro)



Caía lentamente a taça de sua mão. O vinho espalhava-se pela toalha de linho branca. Era isso? Então ele a amava. Estava ali. Em sua frente. Com os olhos cheios de lágrimas. Ele a amava. Mas não suportava. Não podia suportar a forma como a amava. Traição. Segurou a fúria. O ímpeto. A ira tomou conta do corpo que erguia sua mão num gesto agressivo. Parou. A mão pensa no ar. Não deu o tapa que o rosto vermelho de lágrimas já esperava. Respirou fundo. E quando menos se deu conta, era no seu rosto que sentia as lágrimas escorrerem. Pegou a bolsa. Levantou-se. Saiu. Virou as costas e saiu. Pela porta da frente daquele restaurante frio.
Na mesa ficou aquele homem. Aquele pequeno homem perdido. Pálido. Chorava silenciosamente. Mas por quê? Não era isso o que ele queria? Desde o momento em que entrou naquele lugar. Sentou naquela mesa. Era isso o que ele queria. Desde o momento em que entrou naquela boate. Abafada. Em busca. Em busca de algo. Que tirasse. Que arrancasse dele. A bebida. Muita bebida. As mulheres. A traição. Procurava de alguma forma tirar. Arrancá-la de dentro dele.
Não podia mais suportar. A forma como ela entrara em sua vida. Sem pedir licença. Apossou-se de todo o espaço que havia dentro dele. Quando estava por perto o deixava torpe. Inebriado. Seus olhos. O sorriso. O modo como encarava a vida. Seu cheiro constante de shampoo. De alma limpa. Tudo. Não podia mais. Onde quer que fosse lá estava ela. Em tudo que fazia, via seus gestos. Simples. Fortes. Únicos. Podia lembrar ainda, como aos poucos se instalara. Chegara. Modificando-o. Ela era especial. Ele “tinha” que ser especial também. Não podia mais.
Noites. Bebidas mulheres. Foi tentando matar aos poucos o que dela havia. Nos copos. Em outras mulheres. Mas era inútil. Tinha que dar um basta real naquilo tudo. Se fechasse os olhos e continuasse a ver... A forma como escovava os dentes. Os dedos fazendo rolinhos com mechas de cabelo, enquanto distraída, olhando para a TV. Meu Deus! Como ela estava em toda parte! Mesmo com todo aquele som alto. Vulgar. Penetrando em seus ouvidos. Aquele timbre de voz. As risadas. Não saíam da sua cabeça. Não! Chega! Não podia... E os amigos? As festas? Não queria. Amá-la era demais pra ele.
Foi então que decidiu. Mas por que agora doía tanto? Por que chovia lá fora? Por que tanto frio? Aquele vazio. Levou consigo o que de melhor havia nele. Por aquela porta. Fleches. Seu rosto. As lágrimas... Meu Deus! Ele a machucara! Como foi capaz? Se deu conta do quanto a machucou com aquelas palavras. A aparente frieza dos olhos vermelhos. Como foi capaz? Era mesmo um canalha. Ela tinha razão. Mas então por que... Doía tanto? Canalhas... Não deveriam sentir... Deveriam?
Ele não era um canalha. Só não aprendera a amar. Ou aprendera. E por isso... O medo. O medo tomou conta dele. De qualquer forma... Pagou a conta. Vestiu o casaco. E saiu. Pela mesma porta que ela. Ele saiu. Mas não saiu inteiro. Deixara seu coração naquela taça de vinho espatifada. Na mancha vermelha que escorreu pela toalha.

2 comentários:

Gabriel Marchioli disse...

É lindo. Na verdade. “O saber amar.” Cada um ama de um jeito. Ou todos acreditam que amam. Outros apenas não sentem. Quanto egoísmo.
Por onde devo buscar aqueles olhos caídos que tanto me fazem falta. O cheiro dos olhos. É. A essência se dá por meio dessas coisas da naturalidade. Prefiro dizer assim: Amor, isso me simplifica bastante as coisas. Embora persista a vida em continuar...
“Virou as costas e saiu.” E não houve abraço apertado. Nem interrupções alienadas. Não havia mais ninguém ali. Era o espelho da memória que ainda viria a julgar (minutos depois) degustando um pouco do sangue que manchara aquela dor. Paralisando tudo a volta.
“Não podia mais suportar. A forma como ela entrara em sua vida. Sem pedir licença. Apossou-se de todo o espaço que havia dentro dele. Quando estava por perto o deixava torpe. Inebriado. Seus olhos. O sorriso.” A entrega e o sorriso. Sempre o sorriso deixando para trás toda a possibilidade de mudança. O momento era aquele. “Urgente e preciso”. Mas não. Foi bem mais difícil que essas palavras conseguem passar. Seria sonho. Ou sonhos deixando de voar. Mas sonhos não voltam. Que fiquem com aquela dorzinha chata de cabeça. Mas o que é nosso. Fecho os olhos e sigo. Está bem? Por mais que a face reproduza desespero. Ela sempre vai dizer que sim. Amigos. Poucos. Mas fantásticos.
É difícil entender que as pessoas se vão. Particularmente prefiro partir antes. Lágrimas. Essas lavando a face com uma volúpia intolerante. E a vontade. Reconquista. Aquele brilho e “a pipa que precisa voar”. É. Viver.

Victor disse...

Como????
Ah, isso é trágico demais!
Aprender a amar? É o eterno aprendizado...
"Nesse mundo não tem professor pra matéria do amor ensinar, nem tampouco se encontra doutor, dor de amor é difícil curar..." (CARVALHO, XXXX, p. 1)

Abraços!
Gnomo