terça-feira, 13 de outubro de 2009

Medo

“Refugiamo-nos no amor,
Este célebre sentimento,
E o amor faltou: chovia,
Ventava, fazia frio em São Paulo.

Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
Nos dissimula e nos berça.”
(Carlos Drummond de Andrade, A Rosa do Povo)


Fora o som descompassado do seu próprio coração, o som abafado dos passos na neblina fria era tudo o que podia ouvir. O gosto úmido-frio da neblina em seus lábios era tudo o que podia sentir. E se gritasse. E se ecoasse por entre as ruas toda a dor que já sentira um dia. E viria sentir nos próximos.
Em cada rosto. Cada par de olhos. Cada casaco ou capa de chuva. Tudo aquilo que não procurava. Assim estava a salvo. A salvo de si mesma. A salvo dos seus medos. Seria tão impossível quanto encontrar uma agulha no palheiro. Tão obviamente impossível. Que não temia encarar face por face.
Mas se culpava quando seus instintos faziam com que desviasse os olhos ao deparar-se com o amor. O amor. Um casal de mãos dadas. Dedos entrelaçados. Vidas que haviam se encontrado. Só um casal. Mas não se obrigava a olhar. Seria como encarar seus fantasmas.
Por falar em fantasmas, eles eram tantos naqueles túneis. Fluxo de gente saindo pelas inúmeras portas dos metrôs. Cabeças. Pés. Pernas. Corpos se empurrando. E nada mais. A massa que se encontrava e se perdia todos os dias. Fantasmas das pessoas que realmente eram em suas casas. Com suas famílias. Por entre portas e paredes que cheiravam a algo quente e acolhedor. Suave e doce. Erva cidreira e capim. O úmido quente da xícara de chá que se beberia em frente ao pequeno vaso de hortaliças. A única coisa viva que se encontra nos prédios cinzentos. Vida pequena e selvagem. Arrebentando suas raízes no fino vaso de plástico. Diferente de toda aquela umidade fria da garoa que agora grudava em suas roupas, cabelos e mãos. Até mesmo a ponta do nariz perderia o rubor gelado quando estivesse por entre as portas do lar. Ele seria também o primeiro a notar a diferença. A sutil e fundamental diferença entre as ruas ásperas e a casa que se abria aconchegante em seus tapetes e cortinas.
Mas apenas isso não bastaria a ela. A televisão era mais do que deveria ser. Companhia. Os livros na estante faziam mais do que sua parte. Emoções. A maquiagem andava intacta há alguns meses. O amor foi embora. O amor foi embora. Ou talvez nunca tenha chegado. Nunca tenha encontrado. A tela esperava ainda o momento propício. As tintas esforçavam-se por chamar sua atenção com suas cores. Mas tudo o que encontravam era a resposta de um coração quebrado que batia descompassado ao som de uma valsa que nunca tocara em seu pulsar inconstante. Que nunca ouviria. Faltava a música. A letra talvez estivesse completa. O que lhe faltava era a música.
Precisava de tempo. Sabia que o que precisava era de um pouco de tempo. Dirigiria seu carro. Gastaria seu próprio dinheiro. Pagaria suas contas. E talvez um dia pudesse falar do amor. Falar do amor com a propriedade que tem um escritor ao falar de seu próprio livro. Precisava de tempo. Todo mundo precisa de algum tempo. Mas a chuva caía rispidamente lá fora. Caía com a impaciência que sentia o professor de música ao tentar disciplinar um aluno. Todo mundo precisa de alguém. Todo mundo precisa ter alguém. Todo mundo é alguém. Já foi alguém pra outro alguém. Precisa ser alguém. Por detrás da capa de chuva. Por detrás dos escudos escorregadios do medo. Do medo de amar. Do medo da dor. Tem sempre alguém. Era janeiro. E a chuva caía nas ruas. Molhava os telhados. E as folhas do caderno de poesias. E os lábios intactos. E as mãos frias. Era medo. Tudo aquilo não passava de medo.

2 comentários:

Gabriel Marchioli disse...

"Clarisse está trancada no seu quarto
Com seus discos e seus livros, seu cansaço
Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
E esperam que eu cante como antes"


As únicas cores entre os prédios cinzentos era formado pelas frias gotas que caíam sobre as outras desordenadas do caderno de poesia. Era colorido. Mas um colorido borrado, manchado e se perdia. Juntando uma letra em outra, borrando até encontrar a línha de baixo.
Neutra e naturalmente ia se perdendo também o sentido. As folhas borradas entre outras que voava pela casa. Em busca de não sei o que nem onde. Apenas seguiam. Sentiam-se livres e entregavam-se ao vento.
O vento frio, que também soprava do lado de lá...Balançava as folhas quase secas do vaso intocado de hortaliças. Era outono. Isso Ela não disse. Ela descreve o inverno. Mas era verão. Mas era outono. Insisto. Eu senti que era...
A chuva insistia em cair enquanto ela permanecia imóvel no canto daquela cama grande de papel com a televisão fora do ar, segurando os pincéis de tinta debruçada na tela... Na tela!

"Mas um dia eu consigo resistir
E vou voar pelo caminho mais bonito"

Amanda G. Cardoso disse...

Há algumas partes nesse texto que me lembra do PP qdo ele diz que é preciso suportar algumas larvas pra depois as borboletas.


Seus textos me desanimam, sinto os meus uma merda. =P

Parabéns xuxua. Amo o jeito que escreve.

Ah, lembrei disso tb:
“O tempo passa. Mesmo quando isso parece impossível. Mesmo quando cada batida do ponteiro dos segundos dói como o sangue pulsando sob um hematoma. Passa de modo inconstante, com guinadas estranhas e calmarias arrastadas, mas passa”. (Bella - Lua Nova)