segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Tocava U2

Sentada numa mesa de bar...Tão longe dali. Roupas curtas demais. Maquiagem exagerada. “Com ou sem você... com ou sem você...”.Ela fuma um cigarro... E se lembra da infância... “Com ou sem você... com ou sem você...”. É o que está tocando. É o que não sai da sua cabeça.
E ela poderia ter voado enquanto era tempo. Poderia ter voado. Mas teve asas curtas demais pro seus sonhos. “Com ou sem você...”. Era só no que pensava. E no bar a música tão conhecida sua... Diferente daquelas que ouvia enquanto trabalhava naquele ambiente sujo. Ela pode viver. Sabe que pode viver... “Com ou sem você...”.
O que sobrava do batom estava no copo de cerveja. E o perfume adocicado de merda a perseguia. Aquele cheiro de merda doce que outros gostavam tanto de fumar. Nunca entendera bem o por quê. Pelo menos disso não se arrependeria um dia. Não disso. Mas do resto.
As sandálias machucavam tanto. Salto alto. Altos demais. Foi o mais alto que pôde chegar. As unhas vermelhas. Vermelho sangue. Sangue. Viu tanto sangue. Nenhum tão vermelho quanto o dele. Agora as unhas... Não gostava daquela cor, mas o gosto dela não importava. De que cor gostava mesmo? Seria azul? Não se lembrava mais.
Suas mãos refletiam seu rosto. Tão calejada... Toda a sua vida. “Com ou sem você, com ou sem você...”. Ela pode viver. Sabe que pode viver. Pode. Talvez um dia voe. Voe de verdade. Como o pássaro que seu pai fazia dela. Era tão pequena, e ele a levantava tão alto... A fazia voar... Era uma criança tão feliz. Voava. “Com ou sem você...” “Eu posso viver. Eu posso... Sei que posso”.
Tarde demais pra tentar disfarçar. Já soluçava. Chorava de saudade. Mas o som estava alto e as pessoas ao lado inconscientes pela merda doce. Não notariam seu soluço. Como foi que chegara até ali? Em que momento da sua vida. Chegou até ali. Estava ali.
Hoje ela é sozinha. Desde então muito sozinha. Dês daquele dia. Ficara sozinha. Roubaram-no dela. Mataram-na com ele. “Com ou sem você. Com ou sem você...” “Eu posso... sei que posso...”.
E quando passarem por ela na rua, não vão reconhecê-la. Ninguém a enxerga. Nem quando trabalha, aí fica mais invisível ainda. Sai de si mesma. Perde-se dentro do próprio corpo. Vê o pássaro. Vê as mãos protetoras que a suspendiam... “Com ou sem você...” “Me perdoe... eu não pude voar...” “... com ou sem você” “... eu não pude...”. Segue sozinha. O perdera para uma bala perdida. Segue sozinha. Não segue. Morre. Toda a noite morre.

Um comentário:

Gabriel Marchioli disse...

Dividido entre a mais bela obra de arte e o pensamento em que eu me entrego, só um escritor pra compreender o outro sem ser fugaz. With Or Without You. por tantas vezes aqui, de frente ao "eu-mesmo" bem maior que o espelho em que pudesse ser capaz de te encontrar, espelho sujo, refletindo uma face imunda de seu próprio ego, que a partir desse momento se tornaria delírio. Por quantas ruas mais seria capaz de andar sem ser notado, com lágrimas nos olhos.
Hoje não peço mais que fique, tenho a companhia de meu cigarro encantado com os inimagináveis aromas, que me acompanha sem a cobrança de longas conversas, depois de uma noite repleta de delírios inimaginaveis, pensado na bala que o tiraste de mim...
Será como encontrar o elo perdido das emoções, misturando parte da sobra do baton do copo com o gole de cerveja que mataria, se não fosse obvio.
Por tantas avenidas seria capaz de brilhar, se seu sorriso fosse o mais puro, e deixasse a dormir em paz quando apenas deitasse pra repousar.
With Or Without You
Com ou sem música viverei ao teu lado sempre, mesmo que contorne o choro no soluço copo de cerveja nunca degustado molhando-te com os dedos, esfregando a sobra de baton, desta vez o que resta na boca, o desejo e o medo me acompanhando ali, fielmente, e eu, deixei de viver naquele ultimo trago.