segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Equidise.

Lembro-me como se fosse ontem. Ele partia. Meu irmão. Em busca de um sonho. De um futuro. E eu ficava. Tão menina. Tão nova. Nada sabia dessa vida. Só o que queria era as pessoas que amava por perto. Foi minha primeira partida. Falo dessas da vida. Deixemos a perda sem volta para uma próxima oportunidade.
Como doeu. E a primeira vez na rodoviária. Essa. Não vamos nos esquecer nunca. Magro. Careca. Lágrimas. Em todos os rostos. Mas depois. Conforme o passar dos anos. Lá estava. A diferença. Nunca voltaria. O crescimento. Nos olhos. A mudança. Não seria mais o mesmo. Daria um reino em troca de saber tudo o que se passou. Tanto passou. Tanto... A boca nunca revelaria o que a pele sentiu. O que a alma.
Vejo-me agora. Sozinha. Em uma pequena casa. Quatro dias de extrema solidão. De extrema. De análise interna. Olhar para dentro pode doer. Mas ah.... Lá estava. Os olhos. Perdiam-se numa parede, que para qualquer outro alguém seria branca. Escuta. Um som estranho. Começa de dentro. E vai tomando espaço. E cresce. Meu Deus. A pele se abrindo. A casca. Rompendo-se num tremor de ossos. “O que você sente?” E cada parte. O talho. Tornando-se maior. “AAAhhhhhhh...” Grita. Os olhos turvos. A pele, como a mente que se abre. E nunca mais. “Tenta se equilibrar”. Se rompe num todo. Sai. Por completo. A antiga. Idiota. Vulnerável. “Você não é daqui...só pode ter caído lá de cima...em alguma...não é daqui...”. Tola. Ingênua. “Isto fica feliz em ser útil”.
Agora. Observa imóvel. A antiga. Mas encontra-se ainda em carne viva. Exposta. Sua frio. Treme. Como proteger essa agora. E começa. Aos poucos. Uma nova. Bem aos poucos. Tão fina e tênue. Frágil. De início. Qualquer. Tudo. Pode rompê-la. De início. Sabe que quando tudo acabar. “E quanto mais fraca, mais forte eu fico.” É isso. E os olhos perdidos. Brilham ironia. Quanta ironia do destino. Quando tudo acabar. Mais forte. E aquele ardor nos olhos. E aquela forma de andar mudaria. As roupas antigas. Não mais serviriam. O tom de voz. O silenciar ao ouvir uma besteira. As lâminas dos olhos, cortariam mais.
Não perderia a valsa. Ah... Essa nunca. Mas os passos na dança. Mais firmes. A poeira do caminho. Estampada no sorriso ainda doce. Porque crescer não é perder a ternura. Ternura é coragem. Acendam as velas nos becos escuros. Sussurrem aos ouvidos. Pisem sobre os cacos de vidro. É preciso. É necessário. Para poder estender a toalha sobre a grama e deitar-se. Para poder contar não só as estrelas. Os dragões de fogo que cruzam o céu.
Para sentar-se na platéia. Para poder ouvir a orquestra. Para poder cerrar os olhos. E sentir. E haver as lágrimas. E haver o choro silencioso. É necessário. É necessário que a casca. Que esta. Que esta não esteja oca. Que esta não seja a primeira. Que esta não seja a ultima.

3 comentários:

Amanda disse...

Lido!
=*

XUxua a cada dia melhor...
Amo!

Victor disse...

Belo... e intenso!

Gabriel Marchioli disse...

E foi assim mesmo que ela partiu. O som desafino berrava angústia. Desespero. Queria perto. Mas houve mudança. Houveram. Foi necessário. Talvez sofra menos agora. Ou não. De repente faz parte da outra casca. A cicatrizada. Essa com feridas secas. Amareladas. Talvez sofra menos. Mas como seca. Aspera. Dói. Mas pra que falar de dor. Isso foi recíproco. Talvez tivessemos que passar por isso. É dificil. Antes. O desafinado desalento fazia sentido. Hoje. Tudo perdido. Os olhos. A parede branca. Talvez não existam mais paredes brancas. Então vamos prestar atenção no crescimento adquirido. Na alma. Na fonte. Afinal. Quanto amor ainda existe. Mas se a dor passou. Restarão apenas os sorrisos. E a despedida. Mas. Próximo verão eu volto. Combinado??